quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A ministra e a vergonha nacional

Postado no Blog do Juremir Machado (correio do Povo) (em 21 de setembro de 2013 -
 
Por Lucio Barcelos – Médico Sanitarista
Considero totalmente inaceitável que a Ministra do Planejamento (Miriam Belchior) declare que é “impossível atender a  essa demanda sem desarrumar a situação dos cofres públicos”, referindo-se ao Projeto de Lei de Iniciativa Popular que vincula 10% das receitas correntes brutas da União para o Sistema Público de Saúde.
De acordo com dados do Impostômetro, que ninguém refutou, a população brasileira pagou de impostos e tributos, até o dia de hoje (20 de setembro) o valor de R$ 1 trilhão 083 bilhões e 416 milhões de reais. Desse total, ficam com a UNIÃO R$ 875 bilhões e 640 milhões – que representam 80,82% daquele total. E a Ministra tem a cara de pau de afirmar que a União não pode colocar na saúde 10% das receitas tributárias brutas. O que significaria, até o final do ano, em torno de 120 bilhões. Circula no Congresso Nacional, uma proposta de transformar os 10% das Receitas Tributárias Brutas em 10% das Receitas Tributárias Líquidas, o que reduziria o ingresso na saúde para 63,8 bilhões (valor menor do que a União aplica hoje em saúde).
O mais triste e inacreditável é que o governo, através do BNDES, financiou bilhões de reais para a reforma/construção de Estádios de Futebol, que depois da Copa do Mundo vão se transformar em grandes e inúteis elefantes brancos, como o Estádio Mané Garrincha, sediado em Brasília.
A população pobre e remediada, que não tem plano privado de saúde (aproximadamente 150 milhões de pessoas) pode esperar meses por um exame laboratorial ou anos para fazer uma cirurgia especializada, ou o que não é incomum, morrer enquanto aguarda atendimento pelo Sistema Público de Saúde. Sistema que, sabemos todos, está completamente sucateado, privatizado e terceirizado.
O Ministro da saúde, Alexandre Padilha, que é outro grande espertalhão, diz que o “Programa Mais Médicos” foi o “passo mais corajoso que um presidente já deu”.  Seria, se o governo federal tivesse a decência de criar Planos de Cargos Carreira e Salários para as diferentes categorias profissionais que trabalham na área da saúde. Não tomou essa iniciativa e deixou, tanto as categorias profissionais brasileiras, quanto os médicos estrangeiros, comerem o pão que o diabo amassou, para conseguirem trabalhar em municípios sem nenhuma estrutura de diagnóstico e terapia (e não estou falando de ressonância magnética ou tomografia ou qualquer outro exame de imagem mais sofisticado). Estou falando de Laboratório Básico ( hemograma, e demais testes clínicos básicos).
Enfim, um governo pautado pelo grande empresariado, que está privatizando estradas, ferrovias, portos, aeroportos e tudo o mais que seja do interesse dos “grandes empreendedores”, de fato não tem tempo e nem o mínimo interesse em olhar para a saúde da população. Ou para sua educação, que, da mesma forma, está pelas tabelas.
Esperemos que o povo retome suas mobilizações de rua e obrigue este governo a tomar algumas iniciativas que são do interesse da ampla maioria da população.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Texto Publicado no site  www.interludium.com.br

Uma nova tentativa de ataque ao Sistema Público de Saúde.

De acordo com matérias divulgadas na imprensa, o Governo Federal, em acordo com o Senado da República (será mesmo uma res-pública?), tenta, mais uma vez, em nome de uma “neutralização do rombo” que seria criado com o cumprimento do disposto na Emenda Constitucional 29 – que originalmente obrigava a União a disponibilizar 10% de suas Receitas Tributárias Brutas para o Sistema Público de Saúde, disponibilizar 10% de suas Receitas tributárias Líquidas.

Traduzindo em números, significaria que o Governo Federal, ao invés de disponibilizar R$ 120 bilhões para a saúde, disponibilizaria R$ 63,8 bilhões. Isto é, reduziria em praticamente 50% os recursos que a União colocaria na saúde pública. E é bom não esquecer que esse dispositivo da EC 29 vem de longa data. A União, conseguiu, numa manobra parlamentar, eximir-se de colocar os seus 10% das Receitas Tributárias Brutas. E criou-se a Lei Complementar 141 que altera a EC 29 para o seguinte texto: Art. 5o  A União aplicará, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde, o montante correspondente ao valor empenhado no exercício financeiro anterior, apurado nos termos desta Lei Complementar, acrescido de, no mínimo, o percentual correspondente à variação nominal do Produto Interno Bruto (PIB) ocorrida no ano anterior ao da lei orçamentária anual. Deu para entender? A União coloca o montante “empenhado” no ano anterior, mais a variação do PIB. Considerando que o PIB brasileiro tem tido um crescimento ridículo, na real, a União não acrescenta praticamente nada no orçamento da saúde.

Esse bando de políticos e governantes sem a menor vergonha na cara, deveria parar de financiar, com juros subsidiados do BNDES as grandes empresas/corporações que vivem desse tipo de subterfúgio. Aí sobraria dinheiro para a saúde. Diga-se de passagem, até o dia de hoje (13 de agosto 2013) a população pagou a quantia de 968 bilhões e 658 milhões de reais. Desse total, 767 bilhões e 551 milhões (79,24%) ficam com a União. Dá para acreditar que não tem recursos para a saúde? Para financiar Estádios de futebol, que custam mais de 01 bilhão, tem dinheiro. Para a saúde, não!!!!

A saúde, assim como a educação, são DIREITOS de todos os cidadãos que vivem nesse país. O que, na vida real, significa nada. Cada vez mais, tanto o sistema de saúde, como o sistema de educação, estão mais sucateados e mais privatizados, servindo aos fins lucrativos das grandes empresas dessas áreas fundamentais para o desenvolvimento de nossa nação.

Para finalizar: em 1980 a união participava com 75% do financiamento da Saúde Pública, em 1991, com 73% e em 2011 ela contribuiu com apenas 47% do financiamento público total. E, de acordo com a Organização Mundial a Saúde em 2009, o gasto médio público com percentual do PIB de países da organização foi de 5,5%. O Brasil, tem um gasto de apenas 3,7%.

Acrescente-se a isso o “Programa Mais Médicos”, que independentemente das posições da categoria médica, prima pela precarização e desvalorização do trabalho de todas as categorias profissionais que trabalham na área da saúde.

Com essas artimanhas despudoradas, nós certamente não teremos um Sistema Público de Saúde que atenda com dignidade nossa população.

Lucio Barcelos - médico sanitarista



 

 
 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Texto publicado no Blog do Juremir Machado da Silva, jornalista do Correio do Povo.

Médico questiona compra de helicópteros para o SUS

Postado por Juremir em 29 de julho de 2013 -
 
Helicópteros para o SUS?????

Não faço a menor ideia de qual a intenção (visível ou não visível) que o Governador Tarso Genro tinha, ao anunciar a compra de dois helicópteros, pelo Governo do Estado do RS,  para o SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Certamente não é beneficiar a massa de cidadãos que sofrem dia sim, outro também, com as filas intermináveis e abomináveis do acesso ao SUS.
O que posso afirmar com absoluta convicção, é que helicópteros não são prioridade para resolver os problemas do SUS. Eles podem até contribuir em algumas circunstâncias especiais, mas o que o SUS precisa é de aumento, de uma forma permanente, dos investimentos financeiros para sustentar o sistema de uma forma qualificada, criar estruturas regionalizadas de apoio diagnóstico e terapêutico, ampliar, de uma maneira organizada e planejada, a Atenção Básica, através do Estratégia Saúde da Família, contratar, via Concurso Público, com um salário digno,  profissionais de todas as áreas (médicos, odontólogos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, técnicos de enfermagem) e quantos mais forem necessários, para garantir acesso rápido e de qualidade ao Sistema de Saúde.
Não sei o custo dos helicópteros. Mas, certamente, com os recursos que serão despendidos na compra desses equipamentos, daria para contratar mais profissionais ou ampliar a rede de assistência em alguma escala, mesmo que ainda pequena.
A população do Estado, na verdade, do país, está mais do que cansada de esperar meses ou anos a fio para conseguir ter acesso a um exame ou a uma cirurgia especializados. Os helicópteros não vão resolver esse sofrimento de milhares, ou, na verdade de milhões de cidadãos que estão nas filas intermináveis de um sofrimento imposto pelo descaso dos governantes que, sempre, priorizam seus negócios com as grandes corporações do mercado e, se sobrar alguns centavos, colocam em programas sociais.
A população que foi para a rua em junho, deixou bem claro que saúde pública é umas das prioridades que ela considera fundamental para melhorar suas condições de vida.
Helicópteros seriam bem vindo, caso o Sistema Público de Saúde já estivesse estruturado, com um nível de acesso rápido e de qualidade. Mas, do jeito que está, mais parece uma afronta à população que depende exclusivamente do SUS (devem ser mais de 145 milhões de cidadãos no país) e que, como já dissemos, sofre de uma forma aviltante, pelo descaso dos governos.
Melhor seria colocar esses dinheiro na melhoria do acesso ao sistema público de saúde.
Helicópteros, bem depois!!!