quinta-feira, 17 de julho de 2014

Mais um golpe na população pobre! O Secretário da Saúde do município de Porto Alegre, em mais um arroubo de insensatez, resolveu que, a partir de 15 de junho, a maioria da população que depende do Sistema Único de Saúde (quase 80%), para acessar consultas médicas, exames complementares, medicamentos e serviços de emergência e hospitalares, deverão deslocar-se para alguns centros onde será centralizada a distribuição dos medicamentos (os que não são distribuídos nas “farmácias populares” – como se a população pobre buscasse medicação em Farmácias Populares). Agregue-se a isso a necessidade de realização de uma segunda consulta pelo SUS, pelos detentores de Planos de Saúde, para validar suas receitas médicas. O nome disso, segundo o Secretário da Saúde, é “contenção de despesas”, mas a Prefeitura de Porto Alegre, a meu juízo, deveria “conter despesas” em outra área de menor relevância social e essencialidade à população do que a saúde. A população que depende do SUS já é castigada com a precariedade do sistema, enfrentando filas nos Postos de Atenção Básica, pela ausência de profissionais e pela sua baixa resolutividade. Também enfrenta fila nos serviços de emergência: se o sistema básico – porta de entrada do sistema – não funciona, a população busca uma saída na “emergencialização” seus problemas. Ela sabe que por mais que demore, um dia ou mais, ela será atendida no serviço de emergência, realizando exames e obtendo os medicamentos que necessita. O que, na atenção básica, pode levar meses ou anos para alcançar. Afora essa insensatez municipal, é bom não esquecer que o Estado do Rio Grande do Sul possui um laboratório de produção de medicamentos, em Porto Alegre, na Avenida Ipiranga, que há mais de 15 anos não produz absolutamente nenhum tipo de medicamento. Por que será? Falta de equipamentos? Falta de pessoal? Falta de recursos financeiros? Não Creio. Acho que é uma política deliberada de não produzir medicamentos para não competir com a iniciativa privada (os grandes laboratórios nacionais e transnacionais). Espero que no próximo pleito seja eleita uma gestão que, ao contrário da atual, efetivamente respeite a população pobre que necessita do Sistema Único de Saúde. Lucio Barcelos – Médico Sanitarista
Mais um golpe na população pobre! O Secretário da Saúde do município de Porto Alegre, em mais um arroubo de insensatez, resolveu que, a partir de 15 de junho, a maioria da população que depende do Sistema Único de Saúde (quase 80%), para acessar consultas médicas, exames complementares, medicamentos e serviços de emergência e hospitalares, deverão deslocar-se para alguns centros onde será centralizada a distribuição dos medicamentos (os que não são distribuídos nas “farmácias populares” – como se a população pobre buscasse medicação em Farmácias Populares). Agregue-se a isso a necessidade de realização de uma segunda consulta pelo SUS, pelos detentores de Planos de Saúde, para validar suas receitas médicas. O nome disso, segundo o Secretário da Saúde, é “contenção de despesas”, mas a Prefeitura de Porto Alegre, a meu juízo, deveria “conter despesas” em outra área de menor relevância social e essencialidade à população do que a saúde. A população que depende do SUS já é castigada com a precariedade do sistema, enfrentando filas nos Postos de Atenção Básica, pela ausência de profissionais e pela sua baixa resolutividade. Também enfrenta fila nos serviços de emergência: se o sistema básico – porta de entrada do sistema – não funciona, a população busca uma saída na “emergencialização” seus problemas. Ela sabe que por mais que demore, um dia ou mais, ela será atendida no serviço de emergência, realizando exames e obtendo os medicamentos que necessita. O que, na atenção básica, pode levar meses ou anos para alcançar. Afora essa insensatez municipal, é bom não esquecer que o Estado do Rio Grande do Sul possui um laboratório de produção de medicamentos, em Porto Alegre, na Avenida Ipiranga, que há mais de 15 anos não produz absolutamente nenhum tipo de medicamento. Por que será? Falta de equipamentos? Falta de pessoal? Falta de recursos financeiros? Não Creio. Acho que é uma política deliberada de não produzir medicamentos para não competir com a iniciativa privada (os grandes laboratórios nacionais e transnacionais). Espero que no próximo pleito seja eleita uma gestão que, ao contrário da atual, efetivamente respeite a população pobre que necessita do Sistema Único de Saúde. Lucio Barcelos – Médico Sanitarista

sábado, 31 de maio de 2014

Brilhante Ustra, torturador e dissimulado Postado por Juremir em 31 de maio de 2014 - Uncategorized Por Lucio Barcelos – médico sanitarista junho de 2014 Creio que o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra perdeu, completamente, o senso de responsabilidade e de discernimento entre “forças” que se contrapuseram , no período da ditadura a quem ele serviu com tanto denodo. Em sua entrevista para um órgão da imprensa local, o coronel, tergiversa e falseia o tempo inteiro, não respondendo de forma objetiva a nenhuma das perguntas do profissional que o entrevistou. Dizer que houve excesso dos dois lados, colocando-os em um mesmo patamar, como se fossem forças equiparáveis é uma inverdade de uma estupidez nunca antes vista neste pais. O coronel Ustra contava com o APARELHO DO ESTADO, COM AS FORÇAS ARMADAS (EXÉRCITO, MARINHA E AERONÁUTICA), COM AS FORÇAS POLICIAIS CIVIS , COM UMA PARCELA SIGNIFICATIVA DO EMPRESARIADO QUE FINANCIOU E APOIOU DIRETAMENTE O GOLPE DE 64. Os grupos de esquerda – ligados ou não às ações armadas – não contavam com ninguém, além de suas próprias forças, que eram, em relação ao aparato estatal, quase insignificantes. Não sei em que circunstâncias os grupos armados tiraram a vida de algumas pessoas (se é que tiraram). Suponho que tenha sido em situações de defesa própria. Não existe termo de comparação entre as “forças” dos grupos de esquerda e um aparelho de Estado mobilizado contra esses grupos. São forças totalmente desproporcionais. Agregue-se a isso, a ausência de uma posição definida do governo Federal e das Comissões da Verdade (oficiais ou não) a respeito da necessidade de julgar os torturadores e assassinos pelos crimes de lesa humanidades por eles praticados no período da ditadura. As declarações da Presidente Dilma e de seu ministros da Justiça e do Exterior, são exemplos cabais dessa ausência de uma posição mais definida, a favor do Julgamento dos torturadores e/ou assassinos, que serviram a ditadura civil/militar. Infelizmente os Comitês, de uma forma ou de outra, seguem esse mesmo caminho. De qualquer forma, creio que ainda é tempo de iniciar um “abaixo assinado” que circule pela internet, arrecadando as assinaturas necessárias para apresenta-las ao STF.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Raízes da impunidade no Brasil Postado por Juremir em 14 de março de 2014 - Torturadores impunes Muito se fala de impunidade no Brasil. Tenho convicção de que a origem dessa impunidade está na ditadura imposta em 1964. Os ditadores nunca foram punidos. Muito menos os torturadores que fizeram o mais sujo dos serviço para o regime comandado por generais que jamais tiveram a chancela do voto direto. O Brasil é um dos poucos países com ditadura recente a poupar os seus ditadores e os seus torturadores de qualquer punição. Isso se deu pela Lei da Anistia, de 1979, lei de autoanistia pela qual a ditadura aceitou a volta dos exilados em troca da autoabsolvição dos crimes dela mesma. O problema é que os resistentes à ditadura foram punidos com exílio, prisão, tortura, cassações de mandato, mortes e, vale destacar, com processos julgados pelo Superior Tribunal Militar. Um lado foi julgado e condenado. O outro, o dos ditadores e torturadores, não. O jornalista Luiz Cláudio Cunha resumiu: “A conta da ditadura de 21 anos prova que ela atuou sem o povo, apesar do povo, contra o povo. Foram 500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança; 200 mil detidos por suspeita de subversão; 50 mil presos só entre março e agosto de 1964; 11 mil acusados nos inquéritos das Auditorias Militares, cinco mil deles condenados, 1.792 dos quais por “crimes políticos” catalogados na Lei de Segurança Nacional; dez mil torturados nos porões do DOI-CODI; seis mil apelações ao Superior Tribunal Militar (STM), que manteve as condenações em dois mil casos; dez mil brasileiros exilados; 4.862 mandatos cassados, com suspensão dos direitos políticos, de presidentes a governadores, de senadores a deputados federais e estaduais, de prefeitos a vereadores; 1.148 funcionários públicos aposentados ou demitidos; 1.312 militares reformados; 1.202 sindicatos sob intervenção; 245 estudantes expulsos das universidades pelo Decreto 477 que proibia associação e manifestação; 128 brasileiros e dois estrangeiros banidos; quatro condenados à morte (sentenças depois comutadas para prisão perpétua); 707 processos políticos instaurados na Justiça Militar; 49 juízes expurgados; três ministros do Supremo afastados; o Congresso Nacional fechado por três vezes; sete assembleias estaduais postas em recesso; censura prévia à imprensa, à cultura e às artes; 400 mortos pela repressão; 144 deles desaparecidos até hoje”. Basta? Como não houve punição aos criminosos do lado da ditadura, os saudosos dos anos sujos vão festejar os 50 anos do golpe de 1964. Esse o resultado da impunidade no Brasil. O homem comum se diz: se é permitido dar golpe de Estado, derrubar presidente, torturar, matar, armar atentados como o do Rio-Centro, sem qualquer punição, então a bandidagem está liberada. Basta arranjar um pretexto como salvar o país do comunismo. O Brasil é mesmo original: aqui, torturador não se envergonha, não é punido, vive tranquilamente e ainda comemora. Mais do que isso, ainda encontra defensor na mídia com aquele discurso fraudulento: se é para punir, tem de punir os dois lados. Um lado já foi punido. Só falta o outro. A impunidade no Brasil tem origem no regime militar.

sábado, 15 de março de 2014

10 de março de 2014 ARTIGOS E os 12% para a saúde pública, onde estão?, por Lucio Barcelos* O governador Tarso Genro anunciou em prosa e verso que o seu governo aplicaria 12% da arrecadação de impostos do Estado, deduzidas as transferências para os municípios, na área da saúde pública do Rio Grande do Sul, em 2013. Aplicou? Não. Conforme dados e informações do Conselho Estadual de Saúde, o governo do Estado aplicou 8% do Orçamento em saúde. E para 2014 a previsão de investimento é de 10%. Bem entendido, é uma previsão. Executar esses 10%, mesmo em ano eleitoral, são outros quinhentos. O mais interessante deste fato é que ninguém fala dessa defasagem. Eram 12%, mas aplicaram 8%. E daí. Fica por isso mesmo. É, no mínimo, estranho que ninguém se manifeste. Ou melhor, não é estranho. A chamada oposição ao atual governo, seguramente, deverá dar continuidade à mesma política de privatização. Portanto, melhor calar. Na verdade, fica difícil falar em saúde pública, no Rio Grande do Sul, considerando que 84% dos leitos hospitalares são privados (filantrópicos – 245 instituições, ou privados puros) e somente 16% são leitos públicos. E, neste cálculo, não estou considerando os 120 leitos do Hospital de Clínicas que são reservados para pacientes detentores de planos privados ou para quem pode pagar do próprio bolso os recursos financeiros necessários para uma internação privada. Na área de exames complementares mais sofisticados – como tomógrafos e ressonâncias magnéticas, existe uma disponibilidade de sete a 10 vezes mais aparelhos no setor privado do que no setor público. O mesmo fenômeno ocorre com os demais exames complementares. Existem, em Porto Alegre 56 mamógrafos em uso. Desses, somente 18 estão disponíveis para o SUS. Ultrassonografia é igual. De 190 equipamentos em uso, somente 44 estão disponíveis para a clientela SUS. Dá-se o mesmo com os Equipamentos Odontológicos Complementares. De 886 em uso, somente 89 estão disponíveis para o SUS. Ocorre o mesmo com a cobertura da Atenção Básica (ESF mais Unidades Básicas Tradicionais). A cobertura, em 2012, era de 53%. Em relação à Estratégia de Saúde da Família, era de 40%. Isso depois de 25 anos de existência do SUS. Como é possível. Simples. Existe uma política determinada de privatização da Saúde, que vem desde o governo federal, passando pelos governos estaduais e a maioria dos Municipais, de privatização da saúde no Brasil. Deve-se combinar isso, com uma gestão incompetente, na área da saúde. Tanto o secretário que saiu como a secretária que assumiu são pessoas periféricas ao SUS, que não o conhecem e não querem conhecer. Afinal, não estão na direção da Secretaria Estadual da Saúde para construir o SUS. Mas sim, para satisfazer os interesses dos entes privados e intensificar o processo de privatização da saúde. A reversão desse quadro, inconstitucional e extremamente danoso para os 76% da população que depende do SUS, só se dará através de grandes movimentos sociais, exigindo essas mudanças. Não existe outra alternativa. *Médico sanitarista

sábado, 1 de fevereiro de 2014

23 de janeiro de 2014 | ARTIGOS Pela revisão da Lei da Anistia, por Lucio Barcelos* Já manifestei, há pouco tempo, minha opinião a respeito da atual Lei da Anistia vigente em nosso país e, considerando que nada foi feito de objetivo para revisar ou reinterpretar essa malfadada lei, retorno ao tema, por considerá-lo de suma importância. Ainda não entendi qual o papel das Comissões da Verdade (nacional e estaduais) e das comissões autônomas, que até o momento não tomaram nenhuma atitude concreta com o objetivo de propor um projeto de lei de iniciativa popular para dar um impulso concreto à revisão da Lei da Anistia (ou de pressionar o Poder Legislativo para que o faça). Aqui no Rio Grande do Sul, constituímos um Comitê pelo Fim da Impunidade aos Torturadores, seus Mandantes e Superiores. Apesar de nossa insistência, não recebemos o apoio concreto de nenhum comitê, oficial ou não. Este comitê foi constituído em dezembro de 2012 e, tendo em vista os bloqueios diversos e não formalizados, resolvemos ficar na expectativa de novos movimentos. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já havia se manifestado contra a revisão da Lei da Anistia. Agora, para reafirmar a posição reacionária do governo federal, em matéria publicada na edição do jornal Zero Hora de 20 de outubro de 2013, o ministro da Defesa, Celso Amorim, reafirma que a alteração da Lei da Anistia não está na pauta do governo Dilma. É importante lembrar que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, afirmou que a Lei da Anistia pode ser revista e até ser revogada caso haja demanda junto ao STF. Nossos cumprimentos ao ministro Joaquim Barbosa. Não conheço a história do ministro da Defesa, mas, pelo teor da sua afirmação, não foi submetido à tortura, como este articulista e outras centenas de jovens brasileiros no tempo da ditadura, muitos inclusive assassinados. Considero vergonhoso que por aqui os torturadores continuem gozando de toda a liberdade, apesar de terem torturado e assassinado centenas de jovens brasileiros que lutaram para combater o regime de exceção. E ainda dizem que o governo federal é de esquerda. Imagina se não fosse. Importante deixar claro que a pretensão de alterar a Lei da Anistia não tem nenhum lastro vingativo, o intuito é unicamente que se faça justiça. Se um torturador for julgado e inocentado pela Justiça brasileira, vamos acatar a decisão e aceitar o fato como consumado. Ao menos esse bando de torturadores sairá da escuridão e prestará contas à sociedade. Por outro lado, justiça seja feita ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pelos seus esforços para que seja alterada a nossa malfadada Lei da Anistia, pela qual os militares e órgãos civis da repressão autoanistiaram seus torturadores, que, até hoje, andam livres, leves e soltos, como se nada tivesse acontecido. Para finalizar, é bom informar ao ministro da Defesa que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) não possui, dentre as suas atribuições, o julgamento dos agentes do Estado responsáveis pelos referidos crimes. E o período de validade da CNV extingue-se em dezembro do ano em curso, a não ser que o governo federal decida ampliar seu tempo de validade. O que não parece ser o cenário mais provável. *MÉDICO SANITARISTA

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Golpe contra os setores mais pobres da população

Golpe contra os Setores mais pobres da população. Não considero adequado falar em “classes em ascensão”, tendo em vista as políticas assistencialistas e de beneficiamento direto das grandes empresas nacionais e transnacionais, dos governos Lula e Dilma. Considero tanto uma como outra, políticas equivocadas. O que deveria ser ofertado para os setores sociais mais empobrecidos é trabalho e ampliação de acesso aos direitos civis elementares – saúde e educação dignas, habitação e saneamento de boa qualidade e emprego decente.. Políticas assistencias tem duração limitada e assim como foram colocadas a disposição dos mais pobres, podem ser retiradas, num piscar de olhos. São políticas que ferem a dignidade de quem as recebe. Os milhões de pessoas que as recebem, tornam-se reféns dessas políticas. Insisto nesse ponto, porque tenho a convicção de que políticas assistencialistas, transformam as pessoas em “escravas” dos governos que as concedem. São um arremedo de políticas que serviriam para melhorar o nível e a qualidade da vida das pessoas. Criou-se, no Brasil, um exercito de “dependentes” das políticas das malfadadas Bolsas de todos os tipos. E, o que é pior, nos últimos anos o imposto de renda não tem sido corrigido conforme os índices de inflação, estando sua correção defasada em 66,7%, fazendo com que, hoje, um assalariado que recebe RF$ 1.674,66, veja-se obrigado a pagar esse tributo. Como a sonegação é um privilégio daqueles mais bem aquinhoados, aos mais pobres não resta outra alternativa do que pagar. Essa atitude é típica de um governo comandado por um partido que, em sua fundação era um partido dos trabalhadores e hoje é um partido que oferece assistencialismo e entrega todos os bens ligado ao governo (portos, aeroportos, estradas, petróleo, ferroviárias, e o que mais se pensar, às grandes corporações). Um governo decente e justo para com os trabalhadores, deveria desenvolver políticas de ampliação do nível de emprego, e não sub-emprego ou emprego precarizado como acontece hoje. E o pior é que esse ano de 2014 é um ano eleitoral, com um sistema eleitoral apodrecido, sem um único candidato ao governo federal que possa oferecer alguma perspectiva de melhora econômica e social. Como dizem, são todos, vinho da mesma pipa. A única perspectiva positiva que existe é uma possível retomada das mobilizações de Junho de 2013, que envolveram milhões de pessoas e fizeram tremer as bases do governo. Vamos ficar na expectativa de que isso aconteça. Lucio Barcelos – médico sanitarista Janeiro de 2014.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Artigo publicado na Edição da Zero Hora do dia,
09 de outubro de 2013 | N° 17578

ARTIGOS

Fraudes contra o SUS, por Lucio Barcelos*

No dia 6 de março do ano em curso, o diretor financeiro e de planejamento da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre informou, em matéria publicada pela jornalista Maria Isabel Hammes, do Informe Econômico da Zero Hora, que 65% dos atendimentos daquela instituição são utilizados pelos usuários de planos privados de saúde e, portanto, apenas 35% dos leitos são utilizados pelos usuários do SUS.

Só para lembrar, o complexo hospitalar da Santa Casa opera, há muitos anos, com um Certificado de Filantropia. Daí decorre que 60% dos atendimentos de “todos os serviços da Santa Casa” deveriam ser fornecidos ao Sistema Único de Saúde. Informei essa discrepância (para não dizer safadeza) ao Ministério da Saúde. Nenhuma providência foi tomada. A clientela da Santa Casa deve continuar a ser de 65% ou mais de portadores de planos privados, sonegando os atendimentos ao SUS. Importante ressaltar que os hospitais filantrópicos (ou pilantrópicos), ao receberem o certificado de filantropia, assumem o compromisso de atender 60% de sua capacidade pelo SUS, e o restante para planos privados. E para isso deixam de pagar impostos e tributos, reduzindo seus custos em até 30%.

Uma ressalva. Não são todos os hospitais que funcionam dessa forma. Existem alguns que respeitam as normas do SUS.

Segundo, pode ser que, para o Fantástico e para a imprensa em geral, as falcatruas contra o SUS sejam uma novidade. Mas, para quem trabalha na área, esse sistema fraudulento sempre existiu e o Ministério da Saúde não possui estrutura fiscalizatória para coibir esses fatos.

A chamada cobrança por fora ou o preenchimento de AIHs fraudulentas fazem parte do sistema desde que ele foi constituído.

Terceiro, os hospitais privados e/ou filantrópicos recebem, além da tabela formal do Sistema Único, “incentivos” para cada especialidade que eles atendem. Só que eles omitem esse “pequeno” detalhe, para se fazer de explorados.

Particularmente, sou da opinião de que os hospitais filantrópicos deveriam ser “desapropriados” por interesse público. Seria uma medida saneadora do sistema. E acabaria com essas falcatruas que prejudicam e penalizam a população usuária do SUS, que são aproximadamente 150 milhões de brasileiros que não têm acesso a planos privados de saúde. Mesmo os mais simples e de menor custo. Que na verdade são atravessadores de pacientes. Uma vez numa instituição hospitalar, os custos vão para o SUS. E, para variar, sem o ressarcimento devido. Como sempre.
*Médico sanitarista

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A ministra e a vergonha nacional

Postado no Blog do Juremir Machado (correio do Povo) (em 21 de setembro de 2013 -
 
Por Lucio Barcelos – Médico Sanitarista
Considero totalmente inaceitável que a Ministra do Planejamento (Miriam Belchior) declare que é “impossível atender a  essa demanda sem desarrumar a situação dos cofres públicos”, referindo-se ao Projeto de Lei de Iniciativa Popular que vincula 10% das receitas correntes brutas da União para o Sistema Público de Saúde.
De acordo com dados do Impostômetro, que ninguém refutou, a população brasileira pagou de impostos e tributos, até o dia de hoje (20 de setembro) o valor de R$ 1 trilhão 083 bilhões e 416 milhões de reais. Desse total, ficam com a UNIÃO R$ 875 bilhões e 640 milhões – que representam 80,82% daquele total. E a Ministra tem a cara de pau de afirmar que a União não pode colocar na saúde 10% das receitas tributárias brutas. O que significaria, até o final do ano, em torno de 120 bilhões. Circula no Congresso Nacional, uma proposta de transformar os 10% das Receitas Tributárias Brutas em 10% das Receitas Tributárias Líquidas, o que reduziria o ingresso na saúde para 63,8 bilhões (valor menor do que a União aplica hoje em saúde).
O mais triste e inacreditável é que o governo, através do BNDES, financiou bilhões de reais para a reforma/construção de Estádios de Futebol, que depois da Copa do Mundo vão se transformar em grandes e inúteis elefantes brancos, como o Estádio Mané Garrincha, sediado em Brasília.
A população pobre e remediada, que não tem plano privado de saúde (aproximadamente 150 milhões de pessoas) pode esperar meses por um exame laboratorial ou anos para fazer uma cirurgia especializada, ou o que não é incomum, morrer enquanto aguarda atendimento pelo Sistema Público de Saúde. Sistema que, sabemos todos, está completamente sucateado, privatizado e terceirizado.
O Ministro da saúde, Alexandre Padilha, que é outro grande espertalhão, diz que o “Programa Mais Médicos” foi o “passo mais corajoso que um presidente já deu”.  Seria, se o governo federal tivesse a decência de criar Planos de Cargos Carreira e Salários para as diferentes categorias profissionais que trabalham na área da saúde. Não tomou essa iniciativa e deixou, tanto as categorias profissionais brasileiras, quanto os médicos estrangeiros, comerem o pão que o diabo amassou, para conseguirem trabalhar em municípios sem nenhuma estrutura de diagnóstico e terapia (e não estou falando de ressonância magnética ou tomografia ou qualquer outro exame de imagem mais sofisticado). Estou falando de Laboratório Básico ( hemograma, e demais testes clínicos básicos).
Enfim, um governo pautado pelo grande empresariado, que está privatizando estradas, ferrovias, portos, aeroportos e tudo o mais que seja do interesse dos “grandes empreendedores”, de fato não tem tempo e nem o mínimo interesse em olhar para a saúde da população. Ou para sua educação, que, da mesma forma, está pelas tabelas.
Esperemos que o povo retome suas mobilizações de rua e obrigue este governo a tomar algumas iniciativas que são do interesse da ampla maioria da população.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Texto Publicado no site  www.interludium.com.br

Uma nova tentativa de ataque ao Sistema Público de Saúde.

De acordo com matérias divulgadas na imprensa, o Governo Federal, em acordo com o Senado da República (será mesmo uma res-pública?), tenta, mais uma vez, em nome de uma “neutralização do rombo” que seria criado com o cumprimento do disposto na Emenda Constitucional 29 – que originalmente obrigava a União a disponibilizar 10% de suas Receitas Tributárias Brutas para o Sistema Público de Saúde, disponibilizar 10% de suas Receitas tributárias Líquidas.

Traduzindo em números, significaria que o Governo Federal, ao invés de disponibilizar R$ 120 bilhões para a saúde, disponibilizaria R$ 63,8 bilhões. Isto é, reduziria em praticamente 50% os recursos que a União colocaria na saúde pública. E é bom não esquecer que esse dispositivo da EC 29 vem de longa data. A União, conseguiu, numa manobra parlamentar, eximir-se de colocar os seus 10% das Receitas Tributárias Brutas. E criou-se a Lei Complementar 141 que altera a EC 29 para o seguinte texto: Art. 5o  A União aplicará, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde, o montante correspondente ao valor empenhado no exercício financeiro anterior, apurado nos termos desta Lei Complementar, acrescido de, no mínimo, o percentual correspondente à variação nominal do Produto Interno Bruto (PIB) ocorrida no ano anterior ao da lei orçamentária anual. Deu para entender? A União coloca o montante “empenhado” no ano anterior, mais a variação do PIB. Considerando que o PIB brasileiro tem tido um crescimento ridículo, na real, a União não acrescenta praticamente nada no orçamento da saúde.

Esse bando de políticos e governantes sem a menor vergonha na cara, deveria parar de financiar, com juros subsidiados do BNDES as grandes empresas/corporações que vivem desse tipo de subterfúgio. Aí sobraria dinheiro para a saúde. Diga-se de passagem, até o dia de hoje (13 de agosto 2013) a população pagou a quantia de 968 bilhões e 658 milhões de reais. Desse total, 767 bilhões e 551 milhões (79,24%) ficam com a União. Dá para acreditar que não tem recursos para a saúde? Para financiar Estádios de futebol, que custam mais de 01 bilhão, tem dinheiro. Para a saúde, não!!!!

A saúde, assim como a educação, são DIREITOS de todos os cidadãos que vivem nesse país. O que, na vida real, significa nada. Cada vez mais, tanto o sistema de saúde, como o sistema de educação, estão mais sucateados e mais privatizados, servindo aos fins lucrativos das grandes empresas dessas áreas fundamentais para o desenvolvimento de nossa nação.

Para finalizar: em 1980 a união participava com 75% do financiamento da Saúde Pública, em 1991, com 73% e em 2011 ela contribuiu com apenas 47% do financiamento público total. E, de acordo com a Organização Mundial a Saúde em 2009, o gasto médio público com percentual do PIB de países da organização foi de 5,5%. O Brasil, tem um gasto de apenas 3,7%.

Acrescente-se a isso o “Programa Mais Médicos”, que independentemente das posições da categoria médica, prima pela precarização e desvalorização do trabalho de todas as categorias profissionais que trabalham na área da saúde.

Com essas artimanhas despudoradas, nós certamente não teremos um Sistema Público de Saúde que atenda com dignidade nossa população.

Lucio Barcelos - médico sanitarista



 

 
 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Texto publicado no Blog do Juremir Machado da Silva, jornalista do Correio do Povo.

Médico questiona compra de helicópteros para o SUS

Postado por Juremir em 29 de julho de 2013 -
 
Helicópteros para o SUS?????

Não faço a menor ideia de qual a intenção (visível ou não visível) que o Governador Tarso Genro tinha, ao anunciar a compra de dois helicópteros, pelo Governo do Estado do RS,  para o SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Certamente não é beneficiar a massa de cidadãos que sofrem dia sim, outro também, com as filas intermináveis e abomináveis do acesso ao SUS.
O que posso afirmar com absoluta convicção, é que helicópteros não são prioridade para resolver os problemas do SUS. Eles podem até contribuir em algumas circunstâncias especiais, mas o que o SUS precisa é de aumento, de uma forma permanente, dos investimentos financeiros para sustentar o sistema de uma forma qualificada, criar estruturas regionalizadas de apoio diagnóstico e terapêutico, ampliar, de uma maneira organizada e planejada, a Atenção Básica, através do Estratégia Saúde da Família, contratar, via Concurso Público, com um salário digno,  profissionais de todas as áreas (médicos, odontólogos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, técnicos de enfermagem) e quantos mais forem necessários, para garantir acesso rápido e de qualidade ao Sistema de Saúde.
Não sei o custo dos helicópteros. Mas, certamente, com os recursos que serão despendidos na compra desses equipamentos, daria para contratar mais profissionais ou ampliar a rede de assistência em alguma escala, mesmo que ainda pequena.
A população do Estado, na verdade, do país, está mais do que cansada de esperar meses ou anos a fio para conseguir ter acesso a um exame ou a uma cirurgia especializados. Os helicópteros não vão resolver esse sofrimento de milhares, ou, na verdade de milhões de cidadãos que estão nas filas intermináveis de um sofrimento imposto pelo descaso dos governantes que, sempre, priorizam seus negócios com as grandes corporações do mercado e, se sobrar alguns centavos, colocam em programas sociais.
A população que foi para a rua em junho, deixou bem claro que saúde pública é umas das prioridades que ela considera fundamental para melhorar suas condições de vida.
Helicópteros seriam bem vindo, caso o Sistema Público de Saúde já estivesse estruturado, com um nível de acesso rápido e de qualidade. Mas, do jeito que está, mais parece uma afronta à população que depende exclusivamente do SUS (devem ser mais de 145 milhões de cidadãos no país) e que, como já dissemos, sofre de uma forma aviltante, pelo descaso dos governos.
Melhor seria colocar esses dinheiro na melhoria do acesso ao sistema público de saúde.
Helicópteros, bem depois!!!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Bolsa Estupro

O “Estatuto do Nascituro”, aprovado na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, na quarta-feira, dia 05 de junho, representa um retrocesso aos direitos das mulheres, sem precedentes históricos. Importante salientar que esse monstrengo já foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social e Família. Para sua aprovação final deve ser aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e, se aprovado, vai à Plenário para votação final. O texto original é do Deputado Luiz Bassuma (PT-Bahia) e Miguel Martini (PHS-MG).

Em síntese, o “Estatuto do Nascituro”, em primeiro lugar, transforma a mulher de vítima, em criminosa. O Projeto estabelece que em caso de estupro, a mulher não pode recorrer ao aborto para não conceber um filho resultante de um ato de violência. E não estamos falando de um ato de violência qualquer. Estamos falando de estupro, que é um ato bárbaro, perpetrado contra uma mulher indefesa. Muitas vezes uma adolescente ou uma criança. Ou seja, o Estatuto do Nascituro, faz letra morta, do Artigo 128 do Código Penal, que protege e permite o aborto em caso de estupro ou de risco de vida da mãe.

Pois o Estatuto do Nascituro”, extingue um direito arduamente conquistado pelas mulheres que é o de, em caso de estupro, como vale para outras situações de risco de vida da mãe, o direito ao aborto. Nesse caso, vale mais o óvulo fecundado do que o direito da mulher.

Com o agravante de que, caso o estuprador venha a ser identificado, ele, em tendo condições financeiras, deverá pagar uma pensão para a mãe, até a criança completar 18 anos. Caso o estuprador não seja identificado, ou não tenha condições financeiras o “Estado” assume a responsabilidade de pagar o que foi apelidado de “BOLSA ESTUPRO”. Isto implica em, no caso de identificação do estuprador, dar-lhe o estatuto de “pai” e obrigar a mãe a manter contato com essa figura abjeta. Imagine o caso de um estupro por um familiar, o que é muito freqüente. Pai ou padrasto estuprando filha ou enteada. Como fica? A adolescente tem que parir o filho/irmão e conviver com o pai? Esse estuprador não deveria ser preso?

O aborto ilegal já causa 22% das mortes maternas. É a quinta causa de morte materna. Com a aprovação dessa monstruosidade, o número de mortes deverá duplicar ou triplicar.

É evidente que tamanha aberração não nasce do nada e não é aprovada nas Comissões da Câmara dos Deputados por mero acaso. O PL tem o forte apoio das bancadas evangélicas e, considerando que 2014 é ano de eleições presidenciais, devem existir acordos que nós não conhecemos.

Enfim, esse é o Brasil moderno, que aprova a internação compulsória para os usuários de droga (limpeza social) e agora, está prestes a aprovar essa monstruosidade que retira direitos básicos e elementares das mulheres. Não é esse o Brasil que nós queríamos.

Lucio Barcelos - médico sanitarista

Junho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

Um debate totalmente equivocado

Um debate totalmente equivocado.

Eu, honestamente, não consigo entender como as “entidades médicas” (Conselhos, Sindicatos, Centros de Estudo e Pesquisa, etc), conseguem reduzir o debate sobre o sistema de saúde brasileiro há uma mera e ridícula questão corporativa de mais ou menos médicos brasileiros e/ou estrangeiros (cubanos, marcianos, portugueses, espanhóis, ou o que seja).
A discussão é completamente outra.
O que nós temos que debater, e as entidades médicas, salvo raras exceções, não o fazem, é o seguinte:
1 – o sistema público de saúde – proposto na Constituição Federal, Art. 196 a 200, está praticamente destruído. E, nos últimos 02 ou 03 anos, houve uma intensificação no processo de desconstrução e privatização desse sistema. O público, hoje, está terceirizado, de uma forma mercantilizada, via Organizações Sociais, Organizações Sócias de Interesse Público (OSCIPS), Fundações Privadas, etc, etc, etc. O sistema privado, mercantil de saúde, desde sempre preponderou na área da saúde, onde o que importa é a realização de lucros e não o bem estar dos cidadãos. Se, eventualmente, as coisas andarem no mesmo sentido, bom para o paciente. Se não correrem, azar do cidadão que necessita de atendimento de saúde. O privado, e é assim em todas as demais áreas, existe para explorar o trabalho dos seus trabalhadores e, a partir dessa premissa, realizar seus lucros. O resto é secundário.
E vou repetir aqui o que já afirmei em outras ocasiões: A preponderância do privado não é casual e muito menos fortuito. É uma política definida pelos governos (em todas as instâncias) que são e sempre foram caudatárias do setor privado.
Então, o problema da melhoria do acesso e da qualidade do sistema de saúde é, em princípio, uma definição política de fundo. Em nosso país vai preponderar um Sistema Pùblico ou um Sistema Privado de Saúde?
Essa é a questão, Reduzir essa macro questão à importação de médicos estrangeiros ou a contratação de médicos brasileiros com Plano de Cargos e Salários de Estado, é de uma absoluta ausência de critérios sobre o que se pretende de um sistema de saúde.
Ele, o sistema, é um direito da população, como está inscrito na Constituição Federal, assim como é o direito a uma Educação Pública, genuinamente pública e não a oferta  
de bolsas em Universidades Privadas.
Aliás, é bom que se diga que o Sistema Único de Saúde, tem carência de profissionais de todas as áreas e não só de médicos.
E para terminar, é bom não esquecer que o Governo Federal (União) deveria, de acordo com a Emenda Constitucional 29, colocar 10% de suas receitas tributárias brutas no SUS. E, hoje, coloca o empenhado no ano anterior, mais a variação do PIB. Como o PIB brasileiro anda ao redor de 1,5 a 2%, vamos combinar que o governo não aplica quase nada na área.
E, mesmo com as grandes mobilizações de rua, a resposta dos Governos, foi parcial e totalmente insuficiente.
Plebiscito para fazer uma Reforma Política é mais ou menos o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Afinal, quem manda, não são os governos, são as grande corporações nacionais e internacionais.

Lucio Barcelos – Médico Sanitarista

Julho de 2013.

sábado, 18 de maio de 2013

18 de maio de 2013 | N° 17436

ARTIGOS

Autoanistia, até quando?,

 por Lucio Barcelos*

Acabo de ler uma matéria em um site da internet, na qual o ex-delegado e torturador confesso Claudio Guerra se declara como o autor da explosão de uma bomba no jornal O Estado de S. Paulo, na década de 1980. Esse ex-delegado é o mesmo que, em 2012, em um programa de televisão (Observatório da Imprensa, da TV Brasil), declarou, ao vivo, ser o responsável pela morte de mais de cem militantes de esquerda e ter participado da incineração de 10 militantes em um forno de uma usina localizada na área da Grande Rio de Janeiro.

Agora, além de se declarar o acionador da bomba, ele declara que, a partir dos anos de 1973/74, os assassinados pelo regime civil- militar passaram a ser cremados, para evitar “problemas”. Reais ou não, tais informações necessitam de uma investigação e um esclarecimento completos. E o ex-delegado e torturador confesso deveria, ao menos, ficar detido até a total averiguação dos fatos.

Mas isso não vai acontecer, pelo simples fato de o ex-delegado estar protegido pela interpretação absurda da Lei da Anistia (Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979) no Brasil, onde os militares e o Estado se autoanistiaram.

Esta interpretação foi contestada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, posteriormente ao Acórdão do STF, que, de uma forma equivocada, dá guarida à autoanistia. Diz a Corte Interamericana de Direitos Humanos “as disposições da Lei de Anistia brasileira, que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos, são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação [...], nem para a identificação e punição dos responsáveis[...]”.

Agregue-se a esse fato a apresentação, na Câmara Federal, de um projeto de lei, de autoria da deputada Luiza Erundina (PL 573/2011) que objetiva a revisão da Lei da Anistia. Surpreendentemente (ou nem tanto), os deputados governistas rejeitaram o PL, na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da CF, com o argumento de que, com a existência das Comissões da Verdade, não seria necessário rever a Lei da Anistia. Só esqueceram de informar que a Comissão da Verdade não prevê o julgamento dos agentes do Estado responsáveis pelos referidos crimes.

Para finalizar, estamos (um grupo de entidades sindicais, ex-presos políticos e personalidades) engajados em um processo que objetiva dar vida a um projeto de lei de iniciativa popular com vistas à revisão da lei da anistia. Aquilo que parecia consenso e de fácil veiculação tem se mostrado um processo de difícil execução. Mas nós não desistiremos.
*Médico sanitarista
Lucio Barcelos



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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Quantos taxis valem um atendimento de emergência?

Pouquíssimas pessoas teriam capacidade de imaginar uma alternativa tão criativa e, ao mesmo tempo, tão despropositada, como essa encontrada pelo Secretário da Saúde de Porto Alegre e a Direção do Hospital de Clínicas, para “resolver” o problema da superlotação dos serviços de emergência do hospital.

Deve ser o resultado da “obsessão” do Prefeito Fortunati em resolver os problemas da área da saúde pública em Porto Alegre.

Ampliar os serviços de atenção Básica (Estratégia do Saúde da Família, primordialmente) abrindo concursos para contratar novas equipes de profissionais, pagos com salários dignos, até onde a vista alcança, não está nas cogitações do governo municipal.

Assim, do nada, surge essa alternativa, completamente disparatada. É uma ofensa aos cidadãos de nossa cidade e de todos aqueles que vêm a Porto Alegre para utilizar seus parcos serviços.

A rede básica de saúde em Porto Alegre é completamente insuficiente. Acrescente-se a isso o fato de a Secretaria da Saúde do Município, para não precisar “gastar” com a melhoria da saúde de sua população, adotou um procedimento totalmente equivocado. Isto é, não constrói novos serviços. As poucas equipes novas de Saúde da Família, estão localizadas em antigos Postos de Saúde, criando uma situação completamente anômala.

Creio que a população de Porto Alegre, que sustenta esse governo pagando elevados tributos e impostos, merece uma atenção de saúde bem mais qualificada. Da atenção básica até a alta complexidade, passando pelas internações hospitalares e os exames complementares.

Não é possível que o Secretário de Saúde da capital do Estado, e a direção de um Hospital altamente qualificado como o Hospital de Clínicas, procurem resolver os problemas de falta de estrutura do sistema público de saúde, através de medidas de tamanha estreiteza e mesquinharia. Esse recurso que será utilizado para pagar aos pacientes que vão ao hospital, porque não encontram serviços básicos qualificados, deveria ser utilizado para melhorar as condições desse mesmo sistema.

E que ninguém ouse dizer que a Prefeitura não tem recursos financeiros para melhorar a saúde. Quem tem dinheiro para gastar em quatro ou cinco jogos de futebol, na Copa de 2014, certamente tem muito mais para colocar na melhoria da saúde de sua população.

Até quando vamos conviver com governos demagógicos, que só fazem iludir a população mais necessitada, fazendo promessas de melhorias que nunca são cumpridas?

A mescla de privatização com desmonte dos serviços públicos já chegou a um limite insuportável. Os Planos Privados de saúde, que deveriam atender uma parcela da população, e que só pensam em seus lucros, estão cada vez mais, atendendo sua população, com pior qualidade. E, para variar, transferem procedimentos de médio e alto custo para o sistema público sem ressarci-lo, como determina a lei.

Definitivamente, o mundo do mercado não é o melhor dos mundos para a construção de um sistema público de saúde. Saúde não rima com lucro. Ao contrário, elas são excludentes.



Lucio Barcelos- médico sanitarista

Março de 2013



sábado, 9 de março de 2013

Mais um golpe contra o SUS.

Em artigo recentemente publicado pelo jornal Folha de São Paulo e pelo Blog do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (CEBES), com o sugestivo título “Dilma vai acabar com o SUS?” assinado pela Professora Ligia Bahia, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelo Professor Luis Eugênio Portela, da Universidade Federal da Bahia e Presidente da ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e pelo Professor Mário Scheffer, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Conselho do CEBES, os autores iniciam o artigo com a seguinte afirmativa “O desmonte final do Sistema Único de Saúde (SUS) vêm sendo negociado a portas fechadas, em encontros da Presidente Dilma Rousseff com donos de planos de saúde, entre eles financiadores da campanha presidencial de 2010 e sócios do capital estrangeiro, que acaba de atracar faminto nesse mercado nacional“.

E seguem afirmando, “Adiantado pela Folha (Cotidiano, 27/02), o pacote de medidas que prevê redução de impostos e subsídios para expandir a assistência médica suplementar é um golpe contra o SUS, ainda mais ardiloso que a decisão do governo de negar o comprometimento de pelo menos 10% do Orçamento da União para a saúde”.

O mais espantoso é que esse propósito do Governo Federal, esbarra, de início, na Constituição Federal, que é absolutamente clara em relação a essa questão. De acordo com o Artigo 199, parágrafo 2º da CF, “é vedada a destinação de recursos públicos para auxílios ou subvenções às instituições privadas com fins lucrativos”.

Não acredito que exista um único cidadão ou cidadã neste país, que tenha algum tipo de ilusão quanto aos fins obsessivamente baseados em finalidades lucrativas, dos citados Planos Privados de Saúde. O sistema privado de saúde funciona, na realidade, utilizando o sistema público como retaguarda para todos os procedimentos de média e alta complexidade. Como diz o Artigo do CEBES, o sistema público é uma espécie de “resseguro da assistência suplementar excludente”.

Na mesma linha, o jornalista Elio Gaspari, em sua coluna do dia 03 de março, informa que “Desde 1998 as operadoras de planos conseguiram esterilizar as iniciativas destinadas a fazer com que o SUS seja ressarcido pelo atendimento à clientela do setor privado. Para isso, usam poderosas equipes de advogados, parlamentares e uma junta de médicos pessoais dos mandarins do Planalto que, quando adoecem, fogem da rede pública como Asmodeu da cruz”. A respeito dessa questão, já me pronunciei em artigo publicado pela imprensa em nosso Estado.

Assim, creio fundamental a mobilização do Movimento Sanitário, dos Conselhos de Saúde, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal, para barrar mais esse brutal ataque ao Sistema Único de Saúde.

De minha parte, já antecipo que caso essa medida seja concretizada, ingressaremos de imediato com uma REPRESENTAÇÃO questionando a constitucionalidade da mesma, junto ao Ministério Público Federal.

Lucio Barcelos - médico sanitarista

Março 2013



sábado, 23 de fevereiro de 2013

23 de fevereiro de 2013 - ARTIGOS - ZH

Um retrocesso nos direitos humanos, por Lucio Barcelos*

É revoltante e, ao mesmo tempo, quase inacreditável, o uso de força policial para “internar” e levar ao “tratamento” os usuários de droga, como vimos pelos meios de comunicação (TV, em particular). Esta é uma política que já nasce morta, considerando a experiência de quem trabalha nesta área.
De acordo com a secretária adjunta do Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas), “o discurso que circula sobre epidemia do crack não está de acordo com a realidade. Há no imaginário popular a ideia equivocada de que o Brasil está tomado pelo crack, mas o que existe é o uso em pontos específicos, que pode ser combatido com atendimento na rua, não com abordagem higienista, com o mero recolhimento dos usuários”.
Dados do Obid – Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas – revelam que 12% dos paulistanos são dependentes de álcool e apenas 0,05% usa crack.
Dessa forma, dissemina-se a ideia da “epidemia” do crack para justificar a necessidade de uma resposta emergencial para resolver o problema, o que referenda a internação compulsória.
Dessa forma, mantêm-se e firma-se uma política que pretende resolver o problema dos usuários, mas que na realidade veio para resolver o problema da incompetência e da ausência absoluta de vontade política de implantar um verdadeiro sistema de saúde público conforme preconiza a reforma psiquiátrica nesta área.
Para as “autoridades”, o que importa é a Copa do Mundo em 2014.
O que deveria ser feito é a construção de um sistema de saúde eficaz, através da implantação das estruturas substitutivas preconizadas pela reforma psiquiátrica – os centros de apoio psicossocial, de diversos tipos (crianças e adolescente, álcool e drogas, e outros). E a contratação de um amplo conjunto de profissionais de diversas categorias – médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros – para abordar, de uma forma humana e sem ferir os direitos dos cidadãos, e tratar os usuários de droga.
O mais estranho é que pouco se fala dos traficantes de droga. Não estou me referindo às operações policiais que prendem, quase que diariamente, traficantes de terceira linha, isto é, aqueles que vendem no varejo e estão a quilômetros de distância dos verdadeiros e poderosos traficantes de droga.
Caso o governador do Rio de Janeiro tivesse o mínimo de bom senso, e não fosse o mandante dessas operações vergonhosas, ele demitiria as autoridades que desencadearam as operações em questão. Ou, então, o que seria melhor, o povo deveria demitir o governador do Rio de Janeiro.

*Médico sanitarista

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Texto publicado no Blog do Juremir Machado, em 02 de fevereiro de 2013.

Chegamos ao fundo poço com Renan Calheiros?

Chegamos ao fundo do poço!
É inacreditável, mas os profissionais da política, acabam de eleger o Senador Renan Calheiros, presidente do Senado da República.
De costas para a nação, e agarrados aos seus interesses de grupo e corporativos, elegem um senador que renunciou ao seu mandato para escapar de ser cassado pelos seus pares. Na ocasião, o senador foi acusado de ter despesas pessoais custeadas por uma empreiteira. Aliás, uma grande novidade em se tratando de profissionais da política.
Como se não bastasse, na semana passada, a Procuradoria Geral da República ofereceu denuncia ao STF sobre suspeita de que Renan teria apresentado notas frias para justificar sua renda e afastar as acusações de que teria sido custeado pela empreiteira.
Com esse arremedo de cidadão presidindo o Senado e com a Câmara dos Deputados Federais em situação semelhante, onde o que é prioritário são as alianças que envolvem interesses de grupo, corrupção e, em última instância, os interesses da população, estamos (a maioria da população) com uma representação que, de fato, não nos representa.
A “democracia” formal em que vivemos, de democracia tem quase nada. O fosso que os políticos profissionais criaram em relação à população que supostamente representam, é um sintoma claro disso. As desigualdades sociais obscenas, a violência urbana crescente e sem controle das “instituições públicas responsáveis”, a concentração indecente de terras urbanas e rurais, em mãos de meia dúzia de latifundiários, a enorme dificuldade de acesso aos serviços públicos elementares, como saúde, educação, habitação e saneamento, fazem de nossa sociedade aquilo que o professor de economia política da PUC de São Paulo, Vito Letizia, nosso amigo, chamou de “monarquia eletiva”, que governa com o apoio de uma corporação de políticos profissionais periodicamente eleitos para representar o povo, mas que representam antes de tudo interesses corporativos próprios e de grupos capitalistas junto ao estado burguês.
A dissociação entre a população e os “poderes públicos” é uma marca registrada das sociedades atuais. O Estado, que deveria representar essa população, defende, antes de qualquer outra coisa, os interesses de grupos privados, nacionais ou internacionais. Uma vez satisfeitos os interesses desses grupos, as sobras ficam para a população.
As tragédias se multiplicam, algumas por negligência, outras propositadamente. O importante para os detentores do poder é que seus lucros não sejam afetados. O resto que se dane.

Lucio Barcelos – médico sanitarista
Fevereiro de 2013.